15.09.2014Depois de uma viagem noturna mal dormida, num comboio com o ar-condicionado muito forte, chegámos a Varanasi com duas horas de atraso. Mas o
tuc-tuc que deveria fazer o nosso
pickup, estava lá à nossa espera. Agora éramos quatro e por isso necessitámos de dois
tuc-tuc. Fomos levados pelo meio de um trânsito incrivelmente denso onde rapidamente nos perdemos por dois caminhos distintos. Se adicionarmos o calor, o sono e o fumo dos escapes, chegamos facilmente a um fórmula deprimente que me deitou por terra. Estava com muita vontade de chegar ao hotel e descansar. Depois de uma paragem para um chá para o qual fomos convidados e no fim do qual nos pediram 15RP como pagamento, o que incluiu o chá do motorista que nos tinha convidado, entrámos a pé por ruas labirínticas e muito estreitas. Circulávamos com grande dificuldade, concorrendo por espaço com centenas de peregrinos que se dirigiam ao Golden Temple e ao Lalita Ghat. O chão estava uma imundice mas por esta altura já não ligávamos ao tema. O templo está mesmo em frente ao acesso ao hotel e consequentemente esse local é um verdadeiro gargalo pelo qual só passamos, com as nossas mochilas às costas, depois de muita insistência.
Chegamos finalmente ao hotel, que na primeira impressão parece ter-se tratado de um erro lamentável. Tem uma atmosfera um pouco manhosa, embora na verdade seja um verdadeiro oásis tendo em conta a envolvente pela qual tínhamos acabado de passar. O dono do hotel, percebendo que éramos quatro, explicou que não tinha mais quartos disponíveis. No entanto disponibilizou-se para tentar arranjar um quarto num outro hotel. Como no dia seguinte já teria um quarto disponível, perguntámos se não conseguiria meter mais uma cama no nosso quarto. Conseguiu! No final do processo começou a chover e a água caia a fio dentro do quarto. Com uma tranquilidade indiana, comentou que nunca tinha acontecido aquilo e que ia resolver. Saímos então para ver os <i>burning ghats</i> e um passeio de barco que iria incluir um ritual hindu que por sorte se realizava naquele dia, às 19h, e que poderíamos assistir a partir do barco. Foi uma atividade interessante mas uma desilusão em termos fotográficos. É que para assistir ao espetáculo, marcámos o início do passeio para as 17h30. Com mais alguns atrasos, quando finalmente estávamos no rio já a luz para fotografar era miserável. De qualquer forma valeu muito a pena.
De regresso ao hotel, ao cumprir a rotina de retirar da mochila os objetos do costume, verifiquei que me faltava o disco externo que levava para backup das fotografias da viagem e onde tinha também todo o meu portfolio e uma grande quantidade de documentos pessoais. Embora tenha redundância desta informação, na verdade trata-se de conteúdos que não deveriam estar em outras mãos para além das minhas. Expliquei por isso o assunto ao dono do hotel onde estava e pedi-lhe para ligar para o hotel de Khajuaho a confirmar que lá tinha ficado, o que depois de algumas chamadas, acabou por se confirmar. Disseram que no dia seguinte iriam verificar o preço para enviar por correio para Varanasi e dali o dono do hotel tinha-se comprometido a enviar para Portugal. Com tudo isto fomos procurar local para jantar, às 23h. Pelas ruelas labirínticas e quase que assustadoras de Varanasi, só encontrávamos escuridão e portas fechadas. Já quase fora da zona histórica encontrámos um simpático velhote que nos levou à tasca do filho. Comemos <i>paneer dossa</i>, uma espécie de crepe recheado com queijo e outras coisas impercetíveis, bebemos um
lassi e comemos uns doces, terrivelmente doces. Enquanto esperávamos pela refeição, fomos abanados por um velhote com ar alucinado e assistimos ao limpar da casa para encerramento e com preocupação verificámos que as cinzas do <i>tandor</i> e o lixo do chão e até o entulho de uma vala próxima, eram apanhados com tabuleiros iguais aqueles com que nos serviam a comida. Suponho que s tratou de uma coincidência. Regressámos ao hotel, recuperando o percurso em sentido contrário, baseando a orientação em referências visuais e finalmente fomos dormir.
16.09.2014Quando acordámos chovia copiosamente e novamente a água voltou a cair no quarto. Procurámos vasilhame disponível mas que não chegou para apanhar tanta goteira. Com a chuva que caiu, os macacos que nos disseram virem de manhã para o terraço junto ao nosso quarto, não compareceram ao encontro. Ficou por usar a fisga que tinham pendurado numa cadeira de baloiço. Tomámos o pequeno almoço no hotel e voltámos a pedir papel higiénico que o quarto não tinha. Em resposta perguntaram-nos porque não o comprávamos na rua. O dono do hotel confirmou que o nosso quarto não estava em condições e como já havia outros disponíveis, passámos para outro. Explicou que o quarto era um pouco mais pequeno mas de resto também tinha ar-condicionado, que apenas não funcionava porque não havia eletricidade. As quebras de luz eram constantes e em consequência não havia água porque a bomba não enchia os tanques. Em resumo, com o calor que estava, não havia forma de tomar banho e a sanita assumia verdadeiros padrões indianos. Em desespero a Margarida pretendia tomar banho com água engarrafada. Saímos para ver o Lalita Ghat e pelo caminho fomos obrigados a encostar-nos à parede, subindo uns degraus para deixar passar um apressado cortejo fúnebre, sendo que o falecido vinha numa padiola enflorada e, com os movimentos de quem o transportava, abanava a cabeça num veemente “não” como quem não quer ir para a fogueira. Estávamos à mesma altura do cadáver, pelo que nos passou mesmo em frente aos nossos ocidentais narizes. Não ficámos muito tempo no Lalita Ghat porque o “espetáculo” das fogueiras eternas é deprimente e no meu caso específico, também porque não posso fotografar naquele local

Para desanuviar fomos beber uns
lassi no local mais famoso de Varanasi, segundo o guia. A lista de alternativas era enorme e a casa era original pelo facto de o rapaz estar sentado de pernas cruzadas, virado para a rua e de costas para os clientes sentados no interior. Aqueles
lassi estão corretamente referenciados porque são muito bons. Para não nos esquecermos do local onde estávamos, passou mais um corpo para o crematório. Abstraímo-nos da situação, largando a pequena colher de madeira e bebendo sôfregas goladas diretamente do pote de barro em que era servida a iguaria. Seguindo a tradição da casa, deixámos fotografias nossas na parede, junto com centenas de outras.
Varanasi é a cidade mais santa para os hindus que por isso ali desejam morrer, no pressuposto de que estarão mais perto do nirvana. Ali é fácil deixarmo-nos transportar para a idade média que na Europa não deveria ser muito diferente naquela época. Com o calor e todo aquele santo ambiente, a Carol ficou meio indisposta e por isso regressou ao hotel com o Márcio, para recuperar. Eu e a Margarida, desejosos de conhecer os nosso limites, decidimos baixar novamente aos
ghats e percorre-los até as forças nos permitirem. Empunhei a minha Canon EOS 6D e, refugiado atrás dela, avancei sem medos. Na falta de equipamento fotográfico, a Margarida escondeu-se atrás de uma garrafa de água mineral… fresca!

Nos <i>burning ghats</i) não podemos fotografar. Mas nos restantes, poucas vezes temos dificuldades. Vou fazendo boas imagens. Há rituais por todo o lado. Num dos <i>ghat</i> apercebemo-nos que também este é um dia especial. As mulheres jejuam e fazem rituais de fertilidade, banhando-se, orando em conjunto e fazendo oferendas que entregam ao Ganga, o rio sagrado a que chamamos de Ganges. Recolho muitas imagens e só me vou dececionando pela falta de Sahdus, os “homens santos” que esperava encontrar em quantidade. Os poucos que encontro, pedem-me dinheiro para serem fotografados, coisa que vai contra os meus princípios. Pelo caminho somos também presenteados com uma manada de búfalos de água que estavam a ser lavados no rio. Chegamos ao último <i>burning ghat</i> e decidimos regressar. Pelo caminho a Margarida teve algumas quebras de tensão e por isso fizemos paragens frequentes. Chegámos ao ponto de partia quando o dia está a terminar, altura em que muito mais pessoas descem aos <i>ghat</i> para os cerimoniais noturnos. De regresso ao hotel, continuava a não haver água e energia, o que nos lavou o moral. Voltamos a ligar para Khajuraho e depois de mais algumas chamadas, veio a notícia que não esperava. Queriam ganhar dinheiro com a minha dificuldade e pediam um valor exorbitante para enviarem o disco pelo correio. Desligámos a chamada e procurámos uma alternativa. E quando finalmente a encontrámos, responderam que só me entregavam o disco a mim, pessoalmente em Khajuraho ou enviavam para Varanasi pelo valor indicado. Então decidi abdicar do disco e quando regressar a Portugal irei apresentar o caso à embaixada, pedindo que intervenham no caso. Antes de encerrar este assunto não posso deixar de sublinhar o empenho e disponibilidade do Sr. Prabhat Singh, dono do Suraj Gest House, que envidou todos os esforços para me ajudar a recuperar o disco. Fica neste caso representada uma Índia “correta”, em oposição ao comportamento do Hotel Surya in Khajuraho, que com propriedade desaconselho a utilização.
Tarde e a más horas e sem termos almoçado, fomos fazer o jantar de despedida dos nossos amigos Zucas a um restaurante finório onde chegámos por sinistros becos e vielas, em que evitávamos pisar as poias de vaca ou algum rato, usando a luz do telemóvel. Mas o restaurante valeu a pena. Comemos bem no terraço com vista para o rio. Regressámos nas mesmas condições e já no nosso hotel, despedimo-nos do Márcio e da Carol. Boa gente com quem privámos estes dias que souberam a pouco. Ficou a convite e a genuína vontade de os receber em Lisboa. Fomos então dormir porque no dia seguinte seguíamos cedo para o aeroporto.
17.09.2014Tínhamos contratado um serviço de <i>pickup</i> que nos veio guiar do hotel até à zona do
tuc-tuc e daí fomos num destes até ao aeroporto. Voámos para Delhi e, com um diferencial previsto de 2h, com atraso, apanhámos outro para Goa. Ali tínhamos um serviço de <i>pickup</i> para o Silver Moon Guet House. A distância ainda considerável que une os dois pontos foi feita a bordo de um Force, um jipe indiano que tenho cobiçado ao longo desta viagem e que parece ser um verdadeiro “puro&duro”.
A boa qualidade da luz do final do dia e a envolvente muito verde de floresta e coqueiros, deu-me uma primeira impressão muito boa de Goa. Vamos ver se os próximos três dias que por aqui vamos estar confirmam esta impressão.
Depois de conhecermos o John e a Maria e de fazermos o <i>check-in</i>, fomos deixar as mochilas ao nosso quarto e saímos à procura de jantar. Entrámos num restaurante onde já estavam outros estrangeiros e pedimos um prato que se revelou demasiadamente picante para a Margarida. Comeu enquanto suportou e empurrou com King Fisher. Regressámos então ao nosso quarto de acesso exterior por um caminho de terra e em pouco tempo estávamos no “país dos sonhos”.
18.09.2014Sem pressa de acordar, arrumámos um pouco a bagunça em que deixámos o quarto no dia anterior e fomos procurar pequeno almoço com vista para o mar. Aqui até uma simples torrada pode ser picante. Mas não é por isso que, se nos distrairmos, a torrada não é levada por um corvo esfomeado. Ao nosso lado um grupo de chineses deixou um pouco de comida no prato e em poucos segundos tínhamos o “circo montado”, com um bando de corvos a gladiarem-se pelos restos. A tranquilidade é reposta pelo empregado que afugenta as aves. Relativamente perto vemos algumas águias. Uma delas, de cabeça branca. Pousam nos coqueiros e perscrutam o mar à procura de peixe. Rematamos o pequeno almoço com um <i>chai massala</i> e um <i>lassi</i> e seguimos de camioneta para velha Goa. Temos de apanhar três autocarros distintos. Esta é uma experiência nova e interessante nesta viagem. Estas “charruncas” vão apanhado pessoas pelo caminho e o cobrador, normalmente um miúdo empoleirado na porta de entrada, grita o destino e procurar angariar clientela. Tem assobios distintos para “parar”, “esperar”, “arrancar devagar” e “dar gás”. Este último muito utilizado quando vê uma camioneta concorrente que se aproxima. É que quem vai à frente, apanha primeiro os passageiros. Mas quanto pára, dá oportunidade para o concorrente passar para à frente. Ou seja, quando há duas camionetas próximas que têm o mesmo destino, os passageiros são fortemente motivados a “mexerem-se com dinamismo” para entrarem no autocarro.
Na velha Goa vamos “picando” igrejas e catedrais que estão agora a ser totalmente recuperadas com o dinheiro da UNESCO. Em qualquer uma em que se entre vemos pessoas penduradas em andaimes a recuperar quadros ou esculturas ou noutros casos acocorados a catar ervas à mão, de pedras centenárias. Entramos noutra igreja e a Margarida comove-se com uma Nossa Senhora de Fátima, tão longe de “casa”. Entramos num museu e ficamos impressionados com uma enorme estátua de Camões. Por todo o lado há pessoas de apelido “Souza”, há “Restaurante e Taverna”, há lojas “Janota”, há paragens de autocarro “O Coqueiro” e até… a empresa de camionagem “Paulo”, uma das maiores da região, pois claro!

Sabemos que às 19h deixamos de ter autocarros pelo que por volta das 16h30 iniciamos o regresso. E quando chegamos à nossa zona, decidimos ir um pouco mais além, a pé, até à praia de Vagator. É mais longe do que supúnhamos e de volta já não há autocarros. Cai a noite e o percurso fica um pouco mais sinistro. Na dúvida a Margarida arranja um galho de árvore que leva como se fosse uma arma letal. Sai-nos um cão às canelas e falho a biqueirada. O galho assume protagonismo mas hoje não estou inspirado e o fdp do canino passa mais um dia sem ganhar um focinho bífido. Está escuro como breu e há mato de ambos os lados da estrada. De vez em quando passamos em locais com lojinhas montadas em barracas forradas a plástico. O local não inspira preocupações de segurança mas nestas alturas acontecem improváveis. Do mato sai uma manada de vacas e nós ficamos mais ou menos no meio. Estamos de olho no cão que faz o gado mexer-se na direção certa mas acabam por ser dois bois e mereceram a nossa atenção. Resolvem “medir tamanhos” em plena estrada e discutem o assunto à cornada, entre nós e o nosso jantar. A Margarida fica assustada e um passante de moto pára entre nós e os bois e assegura que não há problema. Partilho dessa ideia mas ficaria mais tranquilo se os bois mostrassem evidências de que sabiam disso. Finalmente a estrada fica desimpedida e em pouco tempo estamos sentados em frente a uma King Fisher, à espera que venham dois deliciosos pratos com base de camarão. É hora de regressar ao quarto, ligar a ventoinha e fazer ó-ó. Boa noite!